
MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA VIDA E SAÚDE
A maior parte da minha trajetória profissional foi construída na televisão, mas, desde a faculdade, minha principal paixão sempre esteve no impresso e no digital. Tenho um interesse especial por reportagens longform; um formato que conheci ainda na academia e que, desde então, passou a direcionar o tipo de jornalismo que eu quero fazer.
Movida por esse interesse, decidi escrever uma reportagem sobre um transtorno ainda pouco conhecido no país e submetê-la a uma revista impressa com mais de 80 anos de história. A princípio, a matéria seria publicada como mais uma entre as diversas seções fixas da revista. No entanto, após a leitura, o editor propôs a ampliação do conteúdo, com a intenção de transformá-la em matéria de capa.
Assim, minha reportagem sobre oniomania se tornou a capa da edição de agosto de 2025 da revista Vida e Saúde.
TRANSTORNO DE COMPRA COMPULSIVA: O ALTO PREÇO DO CONSUMO DESCONTROLADO
Oniomania afeta milhões de pessoas no mundo e pode ser um transtorno silencioso, que compromete finanças, relacionamentos e a saúde mental.
Dezembro de 2021. O mundo se preparava para as festividades de fim de ano. Pode-se dizer que foi o primeiro ano em que as coisas começaram a voltar à normalidade, já que, no anterior, muitas famílias ainda pranteavam amigos e parentes que morreram devido à COVID-19.
Naquele ano, como de costume, as lojas estavam repletas de enfeites natalinos e diversas placas anunciavam promoções imperdíveis. A economia começava a girar novamente, depois de um período de incertezas e ansiedades. Enquanto alguns saíam de casa para encher as sacolas e gastar o décimo terceiro salário, outros aguardavam, ansiosos, por uma notificação no celular avisando que o produto já estava a caminho — como era o caso da bióloga Patrícia Vidal. Naquele mês, ela aproveitou todas as promoções que apareciam na tela do celular para aumentar ainda mais sua vasta coleção de bolsas, roupas e sapatos.
Aliás, seu hábito de comprar não se limitava apenas às épocas festivas. Patrícia comprava todos os dias, independentemente da situação. Se estava feliz, comprava; se estava triste, comprava ainda mais. Ansiosa, não hesitava em usar o cartão. Não havia um momento específico para comprar — a qualquer momento, ela aproveitava a oportunidade para digitar a senha na maquininha ou aprovar uma compra pelo celular. Esse hábito a acompanhava desde os 18 anos e, agora, 22 anos depois, ela ainda sentia o mesmo prazer.
No entanto, em janeiro de 2022, tudo mudou quando Patrícia se viu endividada, como diz o ditado brasileiro, “até o pescoço". Naquele momento, ela estava com três cartões de crédito estourados e alguns empréstimos bancários atrasados, sem qualquer perspectiva de pagamento. O marido, com quem dividia a vida havia 20 anos, não fazia ideia de que a esposa acumulava uma dívida equivalente ao valor de uma casa.
Diante dessa situação sem saída, Patrícia não teve outra alternativa senão contar ao marido sobre o drama que estava vivendo. Foi uma conversa difícil e dolorosa, mas ela precisava se antecipar antes que as ligações de cobrança começassem a chegar. O marido não recebeu bem a notícia. Sentiu-se traído. Como assim sua esposa tinha três cartões de crédito em vez de apenas um? Como assim havia contraído vários empréstimos bancários vencidos? Pela primeira vez, a palavra "divórcio" surgiu na conversa. Patrícia temeu as consequências de suas ações, mas, para o bem do casal, a separação não aconteceu.
Após essa conversa, incentivada pelo marido, Patrícia decidiu que precisava de ajuda profissional, pois, pela primeira vez, percebeu que seu comportamento não era normal. E foi no ambiente terapêutico que, após alguns dias, veio o diagnóstico: oniomania, mais conhecida como TCC — Transtorno de Compulsão por Compras.
ONIOMANIA
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a oniomania atinge cerca de 8% da população mundial, com maior prevalência entre as mulheres, correspondendo a cerca de 80% a 94% dos casos. No Brasil, estima-se que 3% da população tenha o transtorno, o que equivale a aproximadamente 6,37 milhões de brasileiros que veem na compra compulsiva uma válvula de escape para questões emocionais mais profundas.
A palavra "oniomania" deriva do grego: oné (comprar) e mania (loucura), e foi descrita pela primeira vez como uma síndrome psiquiátrica no começo do século XX. Mesmo atingindo um número significativo de brasileiros, receber o diagnóstico dessa doença nem sempre é fácil, uma vez que ela apresenta correlação com outros tipos de patologias, como transtornos de humor, transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos do impulso.
“Apesar de não ser um fator determinante, existem fatores psicossociais e emocionais, como baixa autoestima, transtorno de ansiedade e depressão, histórico familiar e/ou transtorno de personalidade, que tornam o indivíduo mais propenso a desenvolver oniomania”, afirma a psicóloga clínica Marcella Renzo.
Para Renzo, “compras impulsivas ocasionais são comuns e fazem parte do comportamento humano, mas acontecem de forma esporádica. Já a compulsão por compras pode ser caracterizada por compras frequentes, sem necessidade real; sentimento de culpa ou vergonha após as compras; dificuldade de controlar os impulsos; consequências financeiras graves; comprar como forma de lidar com emoções negativas; mentir sobre as compras; prejuízos nas relações sociais e familiares, e necessidade de comprar para sentir prazer”, declara.
Vários fatores podem contribuir para o desenvolvimento desse transtorno, incluindo experiências vividas na infância. “Hoje, após iniciar o tratamento, consegui entender que grande parte da minha compulsão veio de momentos em que me sentia feia e esquisita na escola. Nunca fui uma pessoa que se olhava no espelho e se achava bonita. Quando comecei a trabalhar e ganhar meu próprio dinheiro, passei a comprar as coisas que queria. Ao receber elogios pelas roupas que usava, comecei a alimentar a ideia de que só seria notada pelas pessoas se estivesse vestindo algo novo. Eu sentia que elas enxergavam apenas minha aparência externa”, recorda Patrícia.
CRESCIMENTO DO E-COMMERCE BRASILEIRO
Não dá para calcular o custo econômico desse transtorno, mas estima-se que o impulso de comprar movimente mais de US$4 bilhões em compras anuais na América do Norte. Esses dados também refletem a quantidade de publicidade presente em nosso dia a dia.
Os investimentos publicitários no Brasil cresceram nos últimos anos. Em 2023, os investimentos em mídia atingiram R$23,4 bilhões, representando um aumento de 10,4% em relação a 2022. Na publicidade digital, houve um crescimento de 8% em 2023, totalizando R$35 bilhões.
Esse aumento reflete a tendência das empresas em direcionar mais recursos para plataformas digitais, incluindo as redes sociais. Em 2024, o setor de comércio eletrônico no Brasil registrou um faturamento de R$204,3 bilhões, um aumento de 10,5% em relação ao ano anterior. Nesse período, o número de compradores online atingiu a marca de 91,3 milhões. Além disso, um relatório destacou que o Brasil liderou o crescimento mundial em e-commerce em 2024, com um aumento de 16% nas vendas online, superando regiões como a América do Norte (12%) e a Europa Ocidental (10%).
“As plataformas digitais são projetadas para facilitar o consumo rápido, e é importante destacar que as redes sociais e o marketing digital criam um ambiente altamente estimulante e saturado de mensagens de consumo, que nos convidam constantemente a comprar produtos ou serviços. Esse estímulo contínuo pode gerar uma sensação de necessidade de pertencimento, status ou até felicidade, levando algumas pessoas a desenvolverem um comportamento compulsivo de compra”, alerta Marcella Renzo.
TRANSFORMANDO HÁBITOS DE CONSUMO
Não é fácil identificar um transtorno como a oniomania. Patrícia levou 22 anos para perceber que algo em seu comportamento não estava correto, depois de se ver atolada em dívidas que ainda luta para quitar. Apesar da dificuldade, hoje sua relação com o transtorno é totalmente diferente.
“Eu precisei bloquear todos os e-mails e notificações de vendedores online, limitar o tempo de acesso ao celular e me livrar do cartão de crédito para conseguir controlar a compulsão. Hoje, meu marido me ajuda a administrar minhas contas e, toda vez que penso em comprar alguma coisa, faço a seguinte pergunta: ‘Eu preciso mesmo disso?’. E assim vou seguindo, um dia de cada vez, porque tenho consciência de que terei que conviver com esse transtorno pelo resto da minha vida”, declara Patrícia.
Atualmente, Patrícia tem uma página no Instagram e um grupo no WhatsApp, que usa para oferecer orientação e ajuda a outras pessoas que, assim como ela, também têm oniomania. “Decidi criar a página porque, quando identifiquei que tinha um problema, havia pouquíssimas informações disponíveis. Pensei: ‘Se uma pessoa procurar alguma coisa, encontrar minha página, perceber que tem um problema e buscar ajuda, já vou ficar muito feliz’. E o grupo no WhatsApp reúne pessoas compartilhando suas experiências, tanto de luta quanto de vitória. Isso me ajuda demais e me incentiva a continuar firme no meu propósito”, destaca.
Além do tratamento psicoterapêutico, existem grupos de apoio que também podem ajudar pessoas que sofrem com esse transtorno. Esses grupos, conhecidos como Devedores Anônimos, reúnem-se uma vez por semana em vários estados brasileiros. No entanto, em casos de comportamentos compulsivos, é sempre importante buscar acompanhamento profissional para identificar os gatilhos que podem desencadear a compulsão e mudar os padrões de comportamento.
Não há uma medicação específica para a oniomania, mas, quando esse transtorno está associado a outros problemas psicológicos, como depressão e ansiedade, recomenda-se a consulta com um psiquiatra. No entanto, com o tratamento psicoterapêutico adequado, é possível controlar os impulsos compulsivos e viver em novidade de vida.
SINAIS DE QUE VOCÊ PODE ESTAR DESENVOLVENDO ONIOMANIA
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Compras frequentes por impulso
Você começa a comprar coisas sem planejar ou avaliar se precisa mesmo delas. Geralmente, essa decisão de compra surge de um desejo súbito.
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Comprar como válvula de escape emocional
Observe se, antes de comprar algo, você estava triste, ansioso ou feliz demais e depois se sentiu bem. Esse comportamento pode ser um sinal de alerta. Toda aquisição precisa ser guiada racionalmente.
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Culpa ou arrependimento após a compra
Pessoas que estão desenvolvendo a oniomania tendem a ter um sentimento de euforia na hora da compra, mas depois experimentam culpa ou arrependimento. É importante estar atento aos sinais.
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Preocupação constante com consumo e produtos
Quem tem oniomania geralmente pensa em comprar o tempo todo. São aquelas pessoas que enchem o carrinho de produtos em algum aplicativo e passam o dia todo pensando em coisas que ‘precisam’ comprar.
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Dificuldade em controlar o desejo de comprar
Mesmo dizendo que "vai parar", você acaba comprando de novo. Promete a si mesma que será a última vez, mas continua comprando.
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Ocultação de compras ou valores gastos
Você evita contar para outras pessoas o que comprou ou quanto gastou e, quando confrontada, geralmente fica com raiva e se afasta.
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Uso excessivo do cartão de crédito ou parcelamentos
Você começa a recorrer frequentemente a formas de pagamento que mascaram o gasto real, como crédito ou parcelamento, e evita olhar o extrato. Em estágios mais avançados do transtorno, pode recorrer a empréstimos bancários.
DICAS PARA LIDAR COM A COMPULSÃO POR COMPRAS:
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Reconheça os gatilhos emocionais
Gatilhos emocionais são situações, pensamentos ou sentimentos que provocam uma reação automática e intensa, levando você a agir por impulso. No caso da oniomania, emoções como tristeza, ansiedade ou tédio podem resultar em compras desnecessárias.
A dica é: toda vez que sentir vontade de comprar algo, pergunte-se: “Eu realmente preciso disso?”
Se a resposta ainda for sim, espere 24 horas antes de realizar a compra. Na maioria dos casos, essa “necessidade” tende a desaparecer com o tempo.
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Estabeleça um orçamento fixo para compras supérfluas
Compras supérfluas são aquelas que não são essenciais para sua sobrevivência ou bem-estar imediato. Exemplos: o décimo par de sapatos, trocar de celular apenas pela versão mais nova, mesmo com o antigo funcionando, ou comprar itens de decoração só por serem bonitos, mesmo sem espaço para usá-los.
Manter um limite claro para esse tipo de compra ajuda a evitar o comportamento compulsivo.
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Evite cartões de crédito e compras parceladas
Essas formas de pagamento podem se tornar uma armadilha, pois dificultam a visualização do dinheiro que está sendo gasto. O que é "invisível" hoje pode pesar (e muito) no fim do mês. Prefira pagar à vista sempre que possível.
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Fuja das “promoções”
Muitas promoções são estratégias de marketing que criam a ilusão de economia, quando, na verdade, você está comprando algo que nem precisava. Para quem já tem tendência ao consumo impulsivo, promoções podem se tornar um grande gatilho emocional.
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Peça ajuda
Muitas pessoas que sofrem com compulsão por compras sentem vergonha. Mas pedir ajuda não é sinal de fraqueza — é um passo importante para o controle. Converse com alguém de confiança antes de tomar uma decisão de compra. Essa simples atitude pode evitar arrependimentos e dívidas desnecessárias.
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Busque ajuda profissional
Se está difícil colocar essas dicas em prática, talvez seja o momento de procurar ajuda especializada. Um psicólogo ou terapeuta pode te orientar no processo de entender e controlar esse comportamento, ajudando você a recuperar o equilíbrio antes que seja tarde.
OPÇÕES COMPLEMENTARES PARA TRATAR A ONIOMANIA
1. Participe de grupos de apoio
Trocar experiências e receber suporte social pode ajudar no tratamento. Atualmente, a Universidade de São Paulo (USP) oferece um serviço de apoio a pessoas com o transtorno. Ele faz parte do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI), vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (IPq-HC).
Para participar, é necessário entrar em contato com o programa para agendar uma avaliação inicial. Você pode obter mais informações e fazer contato por meio do site oficial: proamiti.com.br ou pelo e-mail: proamiti.secretaria@gmail.com.
Outra opção é o grupo de apoio Devedores Anônimos, que realiza encontros presenciais e também online. Para mais informações, acesse: devedoresanonimos-sp.com.br.
2. Estude sobre educação financeira
Investir em conhecimento pode ajudar no controle dos impulsos. Mas fica o alerta: pesquise sobre o assunto em fontes seguras e bem avaliadas. Um erro comum é adquirir cursos de educação financeira com preços elevados, acreditando que isso resolverá o problema. Há pessoas que ensinam sobre o tema de forma gratuita. Não faça uma nova dívida para tentar controlar as dívidas.
3. Mude de ambiente
Frequentar locais que valorizem o bem-estar emocional, em vez do consumo como forma de validação ou escape, é fundamental para um tratamento mais eficaz.




