LIVRO - REPORTAGEM
Este livro-reportagem nasceu de uma conversa dentro da sala de aula.
Durante a faculdade, uma conversa com uma amiga despertou em mim o desejo de entender, de perto, a realidade de refugiados venezuelanos no Brasil. O que começou como uma simples curiosidade se transformou em uma imersão profunda, que me levou até a fronteira norte do país em busca de histórias reais.
Mais do que um trabalho de conclusão de curso, esse projeto foi uma experiência que atravessou o jornalismo e chegou no humano. Ao longo da apuração, vivi os bastidores, enfrentei desafios de campo e, principalmente, ouvi relatos que mudaram a forma como enxergo o mundo.
Aqui, você encontra um recorte dessa jornada de três semanas vividas intensamente em Boa Vista-RR.
Optei por colocar apenas o trecho inicial de um dos capítulos do livro, que chamamos de: O Ativista.





“Não mais mortes, não mais repreensão. Eu sou libertador, eu sou a Resistência”. Esse era o grito estrondoso dos venezuelanos insubmissos ao governo. As pessoas trafegavam alvoroçadas pelas principais ruas de Caracas; homens, mulheres, jovens, idosos, todos em prol do mesmo objetivo: o fim da ditadura. Adornadas com bonés e bandeiras de seu amado país, gritavam frases de admoestação contra o governo. Erguiam bem alto placas de súplica pelo fim da ditadura, por comida, segurança, saúde, educação, por liberdade. O som era alto. Podia-se ouvir o clamor dos venezuelanos a quilômetros dali. Chegava a arrepiar. Era possível ver o amor dessa nação através de cada olhar, cada grito, cada canto entoado.
A passos lentos, porém firmes, a multidão de manifestantes avançava para a praça Altamira, ponto turístico da capital venezuelana. Dentre os milhares de protestantes, encontrava-se o jovem caraquenho de 17 anos, Jesus Manuel Contreras Villegas. Ataviado com uma camisa branca, jeans escuro e um tênis vermelho, o muchacho de aproximadamente 1,70 de altura gritava incansavelmente palavras de advertência. “No hay arroz! No hay café! En Venezuela lo que hay es escasez! Y va caer! Y va caer! Este gobierno va caer!”. O suor escorria pelo seu rosto avermelhado do sol, e sua voz quase rouca suplicava por água. Suas brancas mãos erguiam a bandeira do amado país. O boné virado para trás, com o emblema da Venezuela, representava um entre tantos outros na multidão.
O protesto havia começado por volta das oito da manhã, em 12 de fevereiro de 2014. As ruas de Caracas não eram mais as mesmas. Agora, não se via mais ambulantes vendendo mercadorias, lojas abertas e ruas limpas. O cenário exibia marcas de tiros nas paredes, lixo espalhado pelo chão, lojas destruídas, prédios comerciais fechados, veículos pegando fogo, frases de repreensão nos muros. Parecia uma zona de guerra. O centro, que outrora fora repleto de pessoas transitando tranquilamente pelas vias, agora cedia lugar a variados tipos de manifestantes. Mas algo em comum os unificava: a bandeira. O símbolo que, no passado, fora sinal de sacrifício, independência e riqueza, ressurge na mão de um povo reivindicando tudo aquilo que um dia lhe pertenceu.
Mesmo cansado, Manuel se mantinha firme. Por vezes, protestava 24 horas seguidas. A Resistência — grupo de ativistas do qual fazia parte — não se dava por vencida, apesar dos inúmeros conflitos com os militares. A luta era desigual: por um lado, armas, escudos e coletes à prova de balas; por outro, bandeiras, placas e bonecos. A batalha intensificava-se cada vez mais. Bombas de gás lacrimogêneo iam ao encontro da multidão enraivecida. Em meio a esse alvoroço, Manuel corria desesperadamente, pois sabia que o grupo de choque da polícia poderia matá-lo ou prendê-lo por até cinco anos.
Enquanto disparava em velocidade, juntamente com outros manifestantes, seu rosto denunciava o pânico de tal situação. Buscava um lugar seguro, onde pudesse recobrar o ar. Foi quando virou o rosto e ficou perplexo com o que viu. Avistou um homem correndo desesperado, pois o fogo se alastrava pelo seu corpo. Depois desse dia, aprendeu a correr sem olhar para trás. Afinal, os militares não tinham compaixão. A ordem era matar...













